Filed under: Jornal Agora | Tags: Amélia, amor, bucho, descartável, modernidade, relacionamento, sexo, Vida
Ela lava, ela passa, ela cozinha dos manjares ao feijão com bucho, sem abdicar por um segundo sequer do amor, da atenção, do cuidado. Ela é terna, ela é meiga, ela é sábia – uma mulher de verdade, embora existam muitos homens Amélias por aí, que não são menos de verdade só por não usarem saias. A Amélia, espécime que hoje não está em extinção, mas por vergonha da moda antiga não dá mais as caras num relacionamento, acaba de ganhar sua versão descartável: ela faz tudo o que a versão tradicional faz e no final do serviço, a porta da rua é serventia da casa.
Triste, mas a sociedade confessa: é prazeroso ser o sol de alguém, mesmo que por alguns poucos momentos. Não há nada mais lisonjeiro que a mordomia exclusiva e voluntária de quem nutre bons sentimentos pela sua figura e não mede esforços para agradar e mostrar que ainda existem bons partidos nesse mundaréu libertino. Cedo ou tarde a tal metade da laranja aparece poeticamente, mas não vai demorar muito pra coisa azedar: a modernidade ensinou a descartar tudo muito rapidamente, não importa se é uma lata vazia de ervilhas ou o provável grande amor da sua vida.
Nunca me conformei com toda essa modernidade dos relacionamentos contemporâneos, que a meu ver, mostram mais uma involução afetiva da espécie humana do que o contrário tão defendido atualmente. Ingressar num desses amores relâmpagos é a melhor forma de perder um, dois, vários amores de verdade, várias Amélias que sintetizam em si mesmas a essência do ser feliz e não apenas do estar feliz. A volatilidade de um relacionamento contemporâneo tirou toda a graça da conquista e os tais bons partidos perderam espaço pra outros bons: os de cama, que são bem mais fáceis – e um pouco repugnantes. Toda essa carnalidade nutrida pela libido que domina qualquer razão e emoção, hora ou outra acaba: a paixão chega ao fim, o tesão deixa de existir, a pessoa perde o encanto. E talvez o mais surpreendente seja se descobrir nesse ínterim como a parte que sonhou, investiu e acreditou o bastante para traçar planos para o próximo mês que nunca hão de se realizar.
Você acaba sendo a Amélia, perene Amélia que não morre de coração partido. E não é que esteja errado, não: paixão tem mesmo que ser vivida, aproveitada, sentida. Sem condições. Mas é sempre bom lembrar que onde não tem reciprocidade, as Amélias viram sextoys. Não vai adiantar fazer feijão com bucho pra quem gosta de comer filé fora de casa.
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