Meu Quadrado – Idéias enlatadas.


A FILHA VIADA

Religião, política, futebol, sexualidade são assuntos que o bom senso (comum) manda não discutir, porque ele próprio pode desaparecer se isso for a pauta da conversa. Apesar de a premissa ser quase um bordão da boa convivência, às vezes a gente ouve alguém conversando sobre o assunto e, quando se espera uma indelicadeza de alguma das partes, é contemplado com uma pequena dose de sabedoria, talvez fruto dos votos dela em abundância no ano novo. Chega a ser encontrada no balcão de uma lanchonete, entre uma coxinha aqui e um refresco acolá, um prato lavado e um cliente chateado.

Sou expert em prestar atenção na conversa dos outros. Mania feia, eu sei, mas às vezes os diálogos são tão interessantes que não ouvi-los chega a ser pecado menos venial que futricá-los – e tomar nota. No balcão de uma lanchonete ali na Goiás, enquanto eu comia qualquer besteira pra matar a fome, um senhor me pede licença e se senta quase em frente a mim. O rosto estava suado, perturbado, nitidamente fora do normal. Acena para o balconista, pede uma empada, um suco e nada que lembre mulher. Depois do choque, o balconista ironiza a situação de um velho virar viado (assim mesmo, com i) e o senhor confessa em resposta sua frustração: brigara com a filha ao telefone e exaltada, ela assumira seu lesbianismo. Pequei o bastante para encontrar e salientar alguns travessões da prosa:

- Olha, pior que um filho viado ou crente, é uma filha lésbica. Sempre dei tudo o que aquela desgraçada quis pra quê? Pra nada! Agora tá aí, se esfregando com menininha que era pra estar comigo, não com ela.

- Moço, cê é casado, num tinha que tá era com menininha nenhuma. Agora sua filha é uma desgraçada porque é viada? Fosse crente ou fosse p**a, é sua filha. Cês deram pra sua filha um coração, não é que ela foi mal educada. Quando a gente tem filho, quer que ele vire médico, católico, pai de família, mas às vezes ele é feliz vivendo o sonho dele e não do pai e da mãe. Ser feliz sem fazer mal pra ninguém, que mal tem?

- Quem falou que não faz mal? Claro que faz. O que vai ser da vida dela?

- Sinceridade? Pela primeira vez, vai ser a vida dela, não sua.

E o velho ficou engasgado sem nem tocar a empada, engoliu seco e saiu sem pagar.


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