Meu Quadrado – Idéias enlatadas.


Torna-te quem tu és
novembro 28, 2011, 1:14 pm
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Frequentemente digo às pessoas com quem convivo que não tenho autoconhecimento suficiente para identificar qualquer traço de personalidade definitivamente meu, algo que venha de mim e comigo permaneça, que me pertença e seja de fato, particularidade minha. Por isso tarefas que envolvam qualquer forma de autodescrição acabam sendo sempre um suplício, um espetáculo mosaísta formado por fragmentos de comportamentos e atitudes que julgo suficientemente louváveis e passiveis de exposição, excluindo aquilo que sei que de alguma forma será reprovado ou possa me depreciar. Todavia, a personalidade de ninguém é definida pelo seu comportamento, por mais que ele possa refletir características íntimas do ser. A personalidade é muito mais abrangente do que simplesmente se ver e descrever em comportamentos, como adjetivos. Nós não nascemos para ser adjetivos. Somos substantivos, e justamente aí mora a diferença entre um aspecto comportamental observável, adjetivável, e o que se realmente é, essência, nome, substantivação.

Quando nos comportamos de determinada maneira, não estamos sendo essencialmente nós – é a simples resposta a um estímulo e, por essa razão, os comportamentos oscilam tanto entre um contexto e outro, entre uma realidade e outra, embora haja quem diga que a realidade é uma só. A personalidade, enquanto característica tipicamente humana, tem lá suas peculiaridades genéticas, seus princípios de sistematização, constituição e organização dentro do eu (o ser mais desconhecido já criado), suas formas de usar as experiências passadas do ser para a modelagem psíquica do homem do presente e do futuro. Diante disso, torna-se portentosa, mas ingrata e impossível missão, definir com base em nossos parcos conhecimentos sobre nós mesmos, aquilo que realmente somos.

Voltando à comparação entre substantivos e adjetivos, faça o teste. Em poucas palavras, tente descrever sua personalidade. Certamente você terá loquacidade ao descrever-se em adjetivos, qualificando-se com base em comportamentos que você observa em si, atitudes que você julga ter (podendo o julgamento ser verdadeiro ou não), atuação que possivelmente considera apresentar, terrivelmente viciada pelos seus anseios de ser ou não ser como você espera. Pasme, é impossível conhecer seu substantivo, aquilo que de fato você é. Ao menos sozinho.

Como frutos de uma constante interação social, relação constante com o mundo ao redor baseada no que tiramos de nós para oferecer aos outros e receber em troca, somos obviamente pautados pelo convívio com os semelhantes, que de jeito ou outro, se não nos molda, ao menos mete a mão na modelagem psicológica do indivíduo. Não quer dizer que a personalidade se forma pelo modo como você lida com sua mãe, ou com um amigo, mas que ela pode ser facilmente percebida pelo consenso entre cada um dos atores do processo relacional. Talvez um dos fatores mais relevantes para a formação da autoimagem seja justamente a forma como somos diante de outros e não diante do espelho. Quando passamos a perceber nosso substantivo, o que somos e não como somos, podemos talvez traçar um panorama sobre nós mesmos, próximo da realidade, mas nunca integralmente certo.

Não sou psicólogo. Construo tal percepção com base em meus preceitos, nada de científico. Se houver alguém que tenha lide com a psique humana, por favor, corrija o que deve ser corrigido. O cerne da questão que coloco aqui, a meu ver puramente leigo, é que a árdua tarefa proposta por Nietzsche de nos tornar quem somos, ou seja, de puro trato com a personalidade, talvez não seja tão simples como traçar objetivos e persegui-los. Antes, é preciso compreender o insuportável círculo vicioso do ser, que impele o indivíduo a se tornar determinado alguém e, logo em seguida, o estapeia com a realidade de que aquilo que se é sempre será inferior àquilo que se pode ser. Portanto, o célebre adágio nietzschiano não preestabelece por si só um alvo psíquico, que promete os louros do desenvolvimento pessoal a quem o atinja, mas pela essência da ideia, é uma prescrição de um constante processo evolutivo de si em relação a si mesmo e ao mundo.

“Torna-te quem tu és” talvez seja a mais difícil das recomendações filosóficas e, mesmo do ponto de vista psicológico, acredito não ser das tarefas mais fáceis. É impossível observar tal orientação sem um nítido discernimento daquilo que de fato somos, daquilo que forma nosso substantivo essencial e não os adjetivos de qualificação viciada ou não, sem o auxílio de quem nos vê. Aqui, é importante lembrar que o espelho sempre nos reflete invertidos e por isso, é fundamental que haja quem nos perceba com a destra na direita e a canhota na esquerda, nunca o contrário. Seja quem for (embora eu recomende um psicólogo), a importância do outro sujeito na autopercepção, na compreensão de si próprio, é fundamental.

De fato, aos buscarmos nos tornar quem somos, o benefício do autodesenvolvimento que a busca proporciona é inexorável – o aperfeiçoamento pessoal, como processo contínuo, é infinitamente maior para quem se envereda por tais trilhas. Entretanto, é importante ressaltar o eminente e constante mistério do autoconhecimento e um dos mais mordazes paradoxos que o conceito carrega consigo: só se conhece bem, quando nos deixamos ser conhecidos por outrem. Conseguir ser o que se é exige uma profunda expertise sobre o caminho e principalmente, sobre o ser.

Eu não tenho tal expertise. E francamente, preciso de alguém que tenha.


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