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Ele não parava de roçar os pés na cama, sem fazer barulho, mas constante o suficiente para incomodar a esposa com uma agonia que atravessava de um lado do colchão para o outro. Ele negava, mas algo o tinha deixado chateado. Os pés assim denunciavam e os anos de casamento ensinaram a mulher a perceber essas insignificâncias cheias de significado numa vida a dois.
A esposa não quis perguntar ao marido, cama não é divã e se não se falavam direito em outras horas, à beira do sono falariam menos ainda. Questionou-se cruelmente se havia sido algo que fez e o desagradou, mas ele não era homem de emburrar. Inquiriu-se até sua autopiedade burlar a consciência e garantir a leveza do sono, sem sequer imaginar o que deixara o homem tão angustiado. Se ele quisesse, falaria.
Se abraçaram. Ele conteve o roçar dos pés por alguns minutos, mas voltou em seguida. Ela conteve sua ternura por algumas horas, mas cansou em seguida. A esposa pensou que dava amor demais. O homem pensou que não houvesse amor que acabasse com a aflição. E dormiram.
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