Filed under: Cotidiano Incomum | Tags: cooper, corno, Corrida, esposa, hetero, Homofobia, homossexualidade, homossexualismo, Traição, viadagem, viado
Sexta a tarde, quase noite, momento perfeito para se estar numa happy hour falando da nova assistente gostosa do chefe, do chefe, ou com o chefe. Mas ao invés de incharem as barrigas com mais chopp, decidiram reduzí-las (ou pelo menos tentariam) com uma não tão happy hour assim de corrida amadora, coisa de quem aprende no Globo Repórter que fazer exercícios com certa frequência é saudável e assim o faz, uma vez por ano, no horário de verão.
Um calçou seu melhor tênis de corrida, que nunca usou e por isso mesmo continuaria sendo o melhor, enquanto o outro escolheu aquele de estimação, surrado demais para a vida, mas ideal para um hobby que não se tem. Começaram a correr logo que saíram do trabalho e não se alongaram, nem fizeram aquecimento, coisas de boiola, estica aqui, estica ali e rapidinho se relaxa músculo que não pode.
Passaram já bufantes pelos pontos que marcavam 500, 1000 e 1500 metros e antes dos dois quilômetros já estavam suficientemente cansados para deixarem a corrida e irem adiante com uma caminhada branda. O melhor momento para se ver gostosas e falar sobre coisas que em outra situação não teria o mesmo gosto. Começaram pelo futebol, cai ou não cai, foram para a assistente boazuda do chefe, depois para o chefe, um comedor, sobre suas esposas, de novo a assistente, as duas gostosas que iam à frente, que bundinhas!, e então, que pouca vergonha, sobre viados, assim mesmo, com i.
Tinham visto dois rapazes boa pinta – homem mesmo nunca diz que o outro é bonito – correndo com certa descompostura, nada macho. As mulheres olhavam pensando no desperdício de testosterona, os homens olhavam porque também eram assim, meio frescos ou porque achavam aquilo um absurdo. O que iam dizer para os filhos? De certo modo, achavam reprovável que gays tivessem vida social fora das paredes, mas o lado bom é que quanto mais homens – de preferência bonitos – se emboiolassem, mais as mulheres estariam desesperadas e nem reparariam tanto assim nas barrigas dos machões – não tem tu, vai tu mesmo. Pensamento comum.
Enquanto caminhavam, puderam notar que os dois gays ou quase isso estavam bem vestidos, eram bem dispostos, tinham a dose certa de vaidade, falavam baixo e pela aparência, tinham uma vida no mínimo farta. Mas não comentaram pra não dar a entender que estavam reparando. Eles, os protagonistas, eram barrigudos, já entrando na calvície (ou a calvície entrando neles), eram grosseiros, trabalhavam muito e recebiam pouco. Cada um tinha sua esposa, um ou dois filhos e não entendiam porque as mulheres achavam os baitolas tão interessantes se não poderiam, sei lá, usá-los.
- Mas hoje em dia tem muita mulher que topa tudo, que seja só uma vez.
- Se topa tudo, topa comigo. Pelo menos eu funciono.
- Todo mundo funciona. Muda só o jeito de usar.
- Vai dizer que aqueles dois pegariam uma mulher?
- Talvez não, mas uma mulher poderia pegá-los.
- A minha não toparia. Minha mulher gosta de macho.
- Sua mulher gosta de homem. Se você fosse barrigudo e careca quando se conheceram, não teriam se casado.
- É melhor ser avantajado na frente do que atrás. E além do mais, você tá na mesma.
- Que você ou que os viados?
- Pô, você tá em dúvida? Boiola.
- Não! É que…
Felizmente, uma mulher gostosa correndo. Até uma mocinha tinha mais pique que os dois, o que não era bom – não porque os menosprezasse, mas porque teriam menos tempo para apreciar aquele par de coxas num short justo, um conjunto glúteo de dar água na boca e um balançado de tirar qualquer cabeça masculina do prumo. Homem tem desse defeito: fica olhando para uma coisa que ele não pode ter só para aumentar o desejo e a consequente frustração. Gosta de passar vontade.
- Olha, não mexendo comigo nem com filho meu, pode ser viado que não tô nem aí.
- Com você ninguém mexeria mesmo, mas seu filho… Ele é que vai escolher daqui a uns anos.
- Qual é? Meu garoto é homem e quando crescer vai ser igual o pai.
- Homem todo viado é. Mas outro igual a você?
- Macho.
- Sei.
- Ó os viadinhos lá na frente de novo. Estão com mais pique que nós.
- Até que são mesmo ajeitados.
- Tô te estranhando.
- Vai dizer que são feios só porque são boiolas?
- Homem que acha homem bonito não existe. Cê tá cortando pro outro lado?
- Não. Só não sou preconceituoso.
- Eu também não, mas que o que eles fazem deve doer, deve.
- Você acha que boiola só faz sexo?
- Não. Também entende de frescuras.
- Mulher gosta de frescuras. Por isso acham viados legais.
Silêncio. Foram até o final do trajeto, cada qual mais ofegante que o outro, sempre reparando em todo par de pernas femininas que lhes passava à frente ou que vinha de lá pra cá. Torceram o pescoço várias vezes e resmungaram coisas que pareciam não elogios, mas o discurso de alguém que vai a um açougue escolher a carne do churrasco. Foram ultrapassados pelo par homossexual mais umas três ou quatro vezes, antes de um explodir em disparates, que o outro nem ouviu.
Já no caminho contrário, muito mais longo que o de ida por conta do cansaço, não resistiram e fizeram sua happy meia hour num boteco copo-sujo, duas cervejas, cachaça e uma porção de torresmo. Coisa de macho. Não, de troglodita. Repetiram os mesmos assuntos, falaram de futebol, da assistente do chefe, das esposas, assuntos esgotáveis, mas que homem faz ser in. Foi quando viram os dois gays passando novamente, dando talvez a última volta, sentindo o álcool entrar e a verdade sair.
- Safados.
- Implicante.
- Vou mijar.
- Também quero, mas prefiro em casa. O vaso é limpo.
- Você mija sentado? Viadinho. Por isso defende os boiolas.
- Sim. Reduz a chance de câncer de próstata.
- Viado. Vai correr com os dois.
- Não posso. Um deles já pegou minha esposa.
- Então não são boiolas?
- Não. O outro está traçando a sua.
- Viados.
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*O texto, em nenhum momento, reflete a opinião do autor sobre homo ou heterossexualidade. As situações são fictícias e o autor não visa estimular a homofobia.
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