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O título não está errado. Reflexão a partir da reflexão de alguém (íntegra aqui). A expansão da fé evangélica tem sido mesmo de uma fé evangélica?
Pessoas sempre são um bom começo de texto. Olho para elas e vejo em cada uma um título, oportunidade de discorrer ludicamente sobre o que se deseja, por mais que o tema seja pra lá de delicado. Mas o mais interessante é que exceto as poesias que descrevem fantasiosamente o que as pessoas são, a grande maioria das palavras escritas falam sobre o que as pessoas fazem – comportamento quase sempre é a pauta, porque na verdade, a vida é feita disso e nada mais justo do que deixá-la fluir verborragicamente num papel ou numa tela. A grande dificuldade de discorrer sobre o comportamento humano é que ele é uma das mais inconsistentes características do homem e, ainda assim, não sei se por ignorância ou por cegueira, é fator de classificação e agregação taxonômica, só porque determinado grupo tem um, talvez dois pontos em comum. Não tudo.
Há pouco mais de dois anos me tornei – como dizem aqueles que encontram no termo “conversão” algo mais complexo e transcendental do que realmente é, quase uma afronta à tradição multimilenar – de outra religião. Nasci num berço católico, por pouco não fui coroinha de igreja e eis que de repente, mudei. Virei a casaca, torci pro outro time e, que absurdo, me tornei um evangélico. Talvez eu tenha me tornado uma estatística do laicismo nacional, desertor da maior nação católica do mundo para integrar uma minoria tão difamada por uma maioria tão ignorante, para não dizer negligente. Num país onde religião é nome de exército e não há tréguas ou alianças, resolvi deliberadamente migrar da trincheira para a linha de frente, bem embaixo das miras. Deixei conscientemente o posto de caçador para me tornar a caça.
Nesses dois anos e alguns dias, época em que tenho aprendido que o homem é mais que mero rótulo – ateu, católico, crente, espírita ou macumbeiro – e por isso mesmo, é digno de respeito seja lá qual for o seu credo, tenho visto também que na verdade, a tal taxonomia das religiões é balela das mais refinadas. Não se pode classificar o homem por aquilo que ele acredita, por aquilo que nem ele mesmo sabe explicar o que é, por aquilo que sequer a ciência – a mesma que abraça o ateísmo e beija o fundamentalismo religioso – traduz. Agregar ou segregar a sociedade com base em credos é, indubitavelmente, deliberar sobre qual erro escolher.
A jornalista “ateia” era de fato do bem, mas o taxista “evangélico” também era. Se, afinal de contas, o capeta seduz e dissimula sua personalidade para amealhar asseclas, um dos dois era então uma fraude. A moça sem Deus trabalhava, era gentil, educada. O moço com Deus era esforçado, fiel, ansioso por levar mais ovelhinhas a conhecerem a portentosa obra divina. Tem um demônio aí. Ou dois. O embate interno que leva a fé do outro em consideração e não a sua própria forma de analisar e criticar as muitas fés que surgem por aí, era nada mais que uma questão mal resolvida, para ambos. Se de Deus, do diabo ou da ignorância humana, ninguém sabe. A sabedoria, em essência, deve ter em seus manuais algum trecho que explique que cada caso, pasmem, é um caso. Não se pode colocar numa mesma classe ateus e ateus. Nem numa outra, evangélicos e evangélicos. É o mesmo que dizer que todos os países são igualmente ricos e politicamente amigáveis, que todas as doenças são homossintomáticas e curáveis, que todos os homens são honestos e de boa índole, só porque fazem parte, se é que fazem, de um mesmo grupo.
Há ateus que simplesmente não acreditam na existência de um ser superior, seja Deus ou deus. Há aqueles que, não bastando não acreditar, querem que os outros desacreditem também. Há os que assim são porque alguém comentou. Há ateus e ateus. Da mesma forma, há, como celebra o coloquialismo cego da época, crentes e crentes e, francamente, concordo com a jornalista quando ela diz que é difícil viver num mundo cada vez mais “evangélico”, onde há milagres nas prateleiras, curas com hora marcada e objetos que talvez Jesus tenha sido incapaz de criar em sua época, então seus discípulos criam hoje com a tecnologia disponível.
Aprendi desde que me tornei um, que “evangélico” (e isso pode ser uma novidade para muitos) é aquele que age conforme orienta o Evangelho. Uau, que descoberta! Se aquele que assim age está seguindo recomendações e não ordens, pode-se dizer que este indivíduo é então, genuinamente evangélico. Você é genuinamente alguém quando age genuinamente de acordo com as premissas para ser alguém. Só se é cidadão se estiver dentro das leis, só se é cristão se professar a fé em Cristo, só se é gente se o comportamento for de gente.
Por essa razão, é insuportável conviver com meus congêneres que não têm nada a ver comigo, gente que explora a fé dos outros para andar de iate, para se tornar deputado, para vender travesseiros mágicos. É triste, não nego. Assim como há ateus de respeito e ateus anticristo, antibuda, antikardec, antitudo; espíritas de paz interior e espíritas que arrancam a paz interior dos outros; há também evangélicos que seguem o evangelho e aqueles que não seguem, que são evangélicos somente pelo que se inscreve na porta da igreja.
Acredito que a tal taxonomia, que deixou tanta gente alienada e agrupou todo mundo como sendo a mesma coisa, será a verdadeira causa de conflitos e não aquilo em que as pessoas professam sua fé, ora ponderadamente, ora sem questionar. Sou evangélico apaixonado pela causa cristã, posso garantir que a fé me fez (e faz) uma pessoa melhor, sei que nada sou sem a presença de Deus na minha vida e sei que não sou melhor que um ateu, bem como o ateu não é melhor que ninguém. Quando me é permitido – e veja bem, quando posso, não quando quero – comento sobre minha fé, da mesma forma como um espírita também se abre comigo sobre sua crença e, que absurdo!, vivemos em paz!
Não sejamos suficientemente hipócritas para afirmar que não desejamos que as pessoas compartilhem conosco nossas crenças. Pensar assim é coisa do capeta, o de sentido sacrossanto ou aquele que habita no inferno da consciência. Toda fatia social precisa de certos preceitos comuns e se não há essa partilha, não há agrupamento. É bem verdade que a parábola do taxista se tornará uma verdade cada dia mais notória no cotidiano não somente nacional, mas mundial, sobretudo nos países menos intelectualizados, mas será mesmo que todos esses taxistas são, como dizem, evangélicos? Será que todos eles são frutos de uma eclesiologia mordazmente capitalista, puramente interessadas em dízimos e não mais na paz consigo mesmo e com Deus? Será mesmo que todo evangélico é alvo fácil de lavagem cerebral e manipulação pelo “clero crente”?
Acho prudente que haja uma maior disseminação do que se entende por “denominações evangélicas”, porque assim como há ateus que não são a melhor flor para se cheirar e fazem questão de dizer refutar tudo aquilo que você acredita, há também evangélicos, esses de verdade, que antes de uma irritante pretensão de ver o mundo todo pagando dízimo, preocupam-se em essência com o amor e o respeito entre os homens, em contraposição ao estigma estupidamente construído em torno do termo que os designa. Um dos maiores erros da sociologia contemporânea é colocar o catolicismo, o ateísmo, o evangelismo e tantas outras religiões como sendo uma coisa só, quando em todas elas as segregações internas alteram substancialmente suas reputações e a forma pela qual são percebidas pela grande massa.
Ao contrário dos amigos da jornalista, que se envergonham em dizer que são ateus, por medo das reações alheias, os meus amigos se orgulham em dizer que são evangélicos. Porque quem o é em verdade, não tem medo de professar sua fé e não vai impô-la ao outro. Quem é evangélico de verdade pode até querer que o outro também seja um, como dizem, crente (outro termo que a superficialidade crítica cunhou erroneamente), mas jamais vai violar a liberdade de escolha do outro, como fazem tantos ateus que me criticam por acreditar em algo que não vejo. Oras, eu não posso ver o vento e ele existe.
Me arriscaria a concluir que a tal liberdade de credo, a qual certamente a Constituição garante, não está sendo solapada. Pelo contrário, cada um agora pode acreditar no que bem entender ou no que bem o fazem entender, já que todos somos livres para crer, mas poucos conhecem a infinitude do pensar. Não deixa de ser curioso que no século XXI ser evangélico continue sendo visto como um grande e perene erro. Mas, depois que os métodos contraceptivos foram determinados como práticas pecaminosas e, isso sim com finalidades puramente mercadológicas para encher o mundo de gente abaixo da linha pobreza, mas que ajuda a ostentar o santíssimo rótulo de maior religião do mundo e ninguém fala nada – nem os ateus – nada mais me surpreende.
Se Deus realmente não existe, que o demônio da parcialidade também não exista.
5 Comentários até o momento
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Seus textos são geniais brother ! Como sempre … ótimo !
Comentário por Guilherme Mendes (@Guimendess_) novembro 18, 2011 @ 5:10 pmLeiam
Comentário por Jé Madeira novembro 18, 2011 @ 6:07 pmhoje em dia as muitas mentiras com minúsculas pitadas de verdade, tem enganado a muitos. O que se conhece como “mundo evangélico” ou “mundo gospel” não é o verdadeiro cristianismo. As pessoas rotulam sem de fato saberem sobre o que estão falando. Concordo quando vc diz que não são todos iguais os que carregam um livro preto debaixo do braço. E pra falara verdade, hoje os verdadeiros crsitãos de tornaram presas não só dos ateus, mas por incrível que pareça dos próprios evangélicos. O triste é saber que muitas pessoas só se convencerão da Verdade quando não tiverem mais nenhuma chance de voltar atrás…
Comentário por Rebeca novembro 18, 2011 @ 6:29 pmA quem me dera se todo mundo pudesse ler esse texto… Top demais!!! Concordo mano… Deus te abençoe mais e mais cada dia! Penso que suas palavras são iguais as de muitos que estão cansados com rótulos errôneos da sociedade que só server para denegrir a imagem dos verdadeiros cristãos. Graças a Deus pela sua palavra! Abração mano!
Comentário por Matheus Simões novembro 19, 2011 @ 2:08 pmA história dos evangélicos (por mais imprecisa que seja essa genérica classificação) apresenta ao mundo nomes como João Calvino, Martinho Lutero, C. S. Lewis, John Stott, Martin Luther King Jr., Malthus, Rubem Alves etc. Certamente, esses nomes que influenciaram os rumos da sociedade moderna podem ser acusados de outras falhas mas não de serem inimigos da reflexão.
Comentário por Tarcísio novembro 20, 2011 @ 2:42 amPor falar em reflexão, parabéns João pelo texto!