Meu Quadrado – Idéias enlatadas.


Faculdade Pitágoras – O futuro é realmente logo aqui?

Boa noite.

Em nome dos alunos do curso de Comunicação Social da Faculdade Pitágoras, embora não seja o representante oficial de minha turma, tampouco do curso, quero expressar minha indignação com a (des)organização de tal faculdade. Apesar de basear-me em minhas experiências pessoais para redigir este texto, todas as observações aqui contidas são comuns a todos os estudantes dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, que partilham da mesma frustração decorrente do descaso da instituição para com a parte que a sustenta: os alunos.

Desde a incorporação da extinta FADOM (a qual nunca obtivera tão altos índices de insatisfação por parte de alunos e professores) pela gigante Pitágoras, os alunos de Comunicação Social vêm sofrendo com a deterioração do curso, com o descaso da direção pela infraestrutura precária com a qual temos que arrastar desidiosamente nossos estudos, bem como com os poucos benefícios que temos em relação à alta mensalidade que pagamos.

Escrevo-lhes, não cobrando soluções, pois, como já presenciamos inúmeras vezes, todas as tentativas amigáveis não frutificaram em absolutamente nada. Quero apenas enumerar alguns pontos negativos, que fazem com que tenhamos péssimas impressões sobre a Faculdade Pitágoras.

Antes, digo que minha revolta culminou com a restrição do empréstimo de um determinado volume da biblioteca Dr. Arthur Braga, pelo fato de que “o tema do livro é incompatível com a área do seu curso” – nas palavras da atendente. Ora, o simples fato de não podermos usufruir do parco acervo de tal biblioteca já constituiria um absurdo para qualquer instituição de ensino. Entretanto, o fato de que pagamos uma das mensalidades mais caras da faculdade, acompanhada de uma taxa de R$15,00 no ato da habilitação da Identidade Estudantil (que é outro absurdo) para podermos usufruir de todos os volumes contidos nas estantes (caindo aos pedaços), durante todo o período do curso e mesmo, dois anos após a conclusão, fazem com que esta restrição seja repugnante, execrável. Faço um curso precário de Publicidade numa escola que faz questão de se mostrar como a melhor da região e me proíbe de locar um livro de Contabilidade. Apesar do esforço de alguns professores em nos formar com uma boa base teórica, sabemos que sem infraestrutura isso é impossível e que, por isso, cabe ao (bom) aluno buscar por outros meios o que a faculdade não pode lhe fornecer. Quando isso ocorre, o aluno é impedido de buscar conhecimento adicional e, no meu caso, sou obrigado a interromper a leitura de um livro que já estava quase no fim por causa de uma proibição mesquinha e injustificável.

Outro ponto também relacionado à biblioteca é o acervo quase inexistente de livros para os cursos de Jornalismo e Publicidade. Claro, eu deveria me focar também nestes volumes, mas há pouco mais de uma estante deles, os quais já li os que tinham alguma informação que não fosse acessível em qualquer conversa de mesa de bar. Nosso acervo, infelizmente, é fraquíssimo e, ao invés de a instituição renovar nossa coleção, sobretudo pelo fato de se tratar de um curso cuja pauta se altera completamente em curtos espaços de tempo, tivemos a agradável surpresa em ver prateleiras inteiras atulhadas de livros dos novos cursos, alguns dos quais ainda nem foram formadas turmas para este semestre. Quando há alguma renovação, elas sempre se concentram nos cursos de Direito e Administração, as meninas dos olhos da faculdade. E então, me pergunto: qual é a vantagem destes cursos sobre o nosso? Ou o problema concentra-se na gestão incompetente?

Não somente incompetente como também irresponsável. A Faculdade é a única que conheço que mescla calouros e alunos do segundo termo numa mesma turma, fazendo com que os primeiros sejam infinitamente menos favorecidos que os segundos, uma vez que foram privados de todas as disciplinas introdutórias do primeiro termo e entraram numa turma com avanços significativos nas matérias. Ou seja: pegaram o “bonde andando” e deverão apresentar os mesmos índices de rendimento dos alunos com base formada. Mais do que uma questão de irresponsabilidade e incompetência, é uma atitude injusta. Embora eu esteja cursando o 5º período, sinto-me terrivelmente afrontado com essa decisão da Faculdade, que também atingiu aos outros cursos. E, como se não bastasse, depois de quatro anos de estudos, os alunos recém-admitidos na instituição deverão cursar as disciplinas introdutórias, se quiserem se formar. Metaforicamente, é como se alguém construísse um edifício começando pelo terraço. Nada se firma, tampouco se mantém firme, sem os alicerces, fato negligenciado pela “Faculdade do Futuro”.

Quanto à infraestrutura, creio eu que não sejamos suficientemente dignos de salas sem mofo ou infiltrações, de computadores que suportem nossas ferramentas de trabalho ou mesmo das próprias ferramentas de trabalho. Talvez assim possamos justificar o não-atendimento das nossas reivindicações. Primeiramente, fomos atirados ao Bloco D, enquanto destruíam nosso antigo bloco para a construção de inúmeros laboratórios, que não são utilizados. Alguns sequer, nem têm turma formada do respectivo curso. O acesso ao laboratório de fotografia, que já era raro, tornou-se inexistente. O laboratório de TV é acessível a toda a cidade, menos para os alunos. O laboratório de radiojornalismo é uma ameaça à saúde de qualquer pessoa que tenha bons pulmões. Todas as salas estão tomadas por mofo e infiltrações, algumas estão os tijolos a vista e outras já quase não têm mais piso. Os laboratórios de informática são equipados com computadores que mal suportam abrir um editor de texto e, cada um pior que o outro. Também não podemos editar quaisquer trabalhos acadêmicos nas máquinas, pois pen drives, disquetes, e-mails são infestados por centenas de vírus que se espalham pela rede. Quando necessitamos de usar o referido laboratório para algum trabalho delegado pelo professor, perdemos todo o horário de aula, pois a internet também não funciona. As aulas que, então, deveriam ser ministradas em 50% de conteúdo teórico e 50% de conteúdo prático, tornam-se apenas um estratagema para atrair prováveis alunos, cruelmente ludibriados por eventos medíocres como este “Mundo Mix de Profissões”, que passa uma imagem absolutamente falsa sobre a realidade da instituição. O que vemos, são meras (e falsas) representações, afirmações hipócritas sobre a qualidade e a tradição de uma das piores instituições de ensino superior que já se instalaram em Divinópolis.

Desde a transição FADOM – Pitágoras (a qual um colega de classe chama pertinentemente de Shitágoras, onde “Shit” é um termo de fácil tradução), foram várias as insatisfações que tivemos, a começar pela demissão de professores altamente conceituados e a substituição por profissionais recém-formados, incapazes de nos fornecer sequer uma informação útil sobre a vivência cotidiana no mercado de trabalho. Professores que mal concluíram a graduação e estão engatilhando um mestrado, que não trabalham na área, não têm bagagem de conhecimento satisfatória e lecionam como se estivessem numa turma de quarta série. Professores despreparados para substituir aqueles com salário elevado. Entretanto, a redução de custos não atingiu nossas mensalidades. Ao contrário! Tivemos um aumento exorbitante para as faturas do ano corrente, sendo que, muita gente que contava com os descontos concedidos pela FADOM teve que trancar a matrícula, porque até os descontos foram cortados, prevalecendo somente o majoritário. Tudo isso, sem enumerar os que deixaram a instituição e deram continuidade aos estudos em outra escola, afirmando que “já que é pra pagar caro, pago numa faculdade que tenha pelo menos uma câmera que a gente possa usar.” Antes, tínhamos pelo menos duas salas de projeções que poderíamos utilizar para nosso curso. Hoje, professores têm que levar seus próprios equipamentos para a sala de aula, devido à dificuldade em agendar as salas de projeção dos outros blocos. E, coincidentemente, são justamente os alunos do curso de Comunicação os que têm mais dificuldade para usar as salas.

No que se diz respeito a eventos, simpósios, seminários e concursos, também nós somos os menos favorecidos. Não tomamos conhecimento de absolutamente nada relacionado à nossa área e, por consequência, nossa formação é muito inferior ao básico que deveria ser fornecido. Faltam divulgações, faltam incentivos, falta uma faculdade de verdade. Nossa única oportunidade de fazer trabalhos que mereçam o reconhecimento da instituição, também foi obliterada pela nova gestão, que decidiu acabar com a Semana da Comunicação.

Além disso, entra também, no espectro de assuntos revoltantes, a ridícula disciplina de “Atividades Complementares” que se arrasta desde o primeiro período e permanece até o oitavo, sendo que em nenhuma outra instituição essa disciplina é presente. “É para substituir as horas de estágio obrigatório” – vocês dizem. E o que vai substituir as disciplinas que estariam no lugar destas atividades? Talvez, depois do curso, possamos fazer as disciplinas introdutórias com os atuais “calouros do segundo termo.” Não fosse a professora Silvana (a qual agradeço pelo excelente trabalho desenvolvido, mesmo em condições precárias) as atividades seriam um verdadeiro fracasso.

Dizem que não se costuma mexer em time que está ganhando. E, desde a vinda do Pitágoras, o time está perdendo por WO. Até quando nós seremos obrigados a aturar esta situação? Até quando estaremos sujeitos a um curso que nos fará apenas indivíduos com curso superior, no lugar de profissionais? Ano que vem, nos formaremos. E eu, em nome da turma, não quero que sejamos apenas “mais uns” no mercado. E apesar do pouco tempo de permanência na faculdade, não posso admitir que essa situação se repita com os outros alunos. Isso é inadmissível. E, além do mais, boa parte da turma ainda pensa numa pós-graduação. E aí?

Espero que possamos encontrar soluções o mais rápido possível para estes problemas.

P.S.: Quero agradecer aos nossos professores, que mesmo com a péssima estrutura da qual dispomos, conseguem desenvolver um bom trabalho e preocupam-se com nossa formação, exatamente como a gestão deveria fazer e não faz.

“O futuro é logo aqui.”

Obrigado;

João Paulo Valério



Cuidado com o vento, João.
janeiro 20, 2009, 1:32 pm
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“Você está prestes a nunca mais respirar este vento, meu caro. Não por culpa ou demérito seus, tampouco por insuficiência do teu organismo. Mas pelo simples fato de que esse vento não mais existirá. Pode ser em uma semana, um mês ou talvez daqui a dez anos. Onde hoje você sente correr o vento, em pouco tempo correrá uma única lágrima.”

 

Numa das dispersas crônicas que costumo ler, aprendi a registrar meus sonhos. Num pedacinho de papel, que seja, ou talvez num post como esse. Não importa quão ominoso seja o sonho, é sempre bom registrá-los. Eles sempre são uma fonte inesgotável de inspiração e, nunca são de todo insignificantes. Desde que passei a guardá-los, de forma escrita, passei a notar uma certa conexão com alguns episódios.

 

Revendo meu “caderno de sonhos”, vi que o primeiro foi há quase um ano atrás. Apesar de não me recordar fielmente, as anotações revelam: um lugar tranqüilo, de verde abundante e muitas árvores frutíferas. Um velho sentado no chão, com as pernas cruzadas e com um corte no queixo. Eu me aproximara dele e ele dissera: “Cuidado com esse vento, João.” Nada além disso.

 

O segundo, foi há menos de duas semanas. O velho não existia mais e eu estava num lugar deveras parecido, senão o mesmo. O cheiro das frutas no chão, já apodrecendo, era forte e ventava muito. Havia um banco de madeira vazio perto de um cajueiro. Enquanto me aproximava, uma voz me disse a mesma frase do primeiro sonho: “Cuidado com esse vento, João.”

 

E, durante essa última semana, o sonho tem sido exatamente o mesmo. O mesmo lugar, o mesmo cajueiro, o mesmo vento e o banco quebrado. A mesma voz me diz exatamente o que está em epígrafe. “Você está prestes a nunca mais respirar este vento, meu caro. Não por culpa ou demérito seus, tampouco por insuficiência do teu organismo. Mas pelo simples fato de que esse vento não mais existirá. Pode ser em uma semana, um mês ou talvez daqui a dez anos. Onde hoje você sente correr o vento, em pouco tempo correrá uma única lágrima.”

 

Pelo pouco de interpretação de sonhos que aprendi num livro, sei que não se sonha a toa. Cada elemento de um sonho tem um determinado significado, que, por sua vez, é contextualizado pela vida real do sonhador. Mas, exatamente o mesmo sonho, durar uma semana inteira, é demais. Alguns elementos que constatei nestes sonhos não são difíceis de decifrar. Mas, que diabos quer dizer “não por culpa ou demérito seus”? O cajueiro do lugar onde o sonho se passa (e que conheço como a palma da minha mão) não dá sequer uma flor, desde antes de eu nascer. Porque o banco estaria justamente ali? Porque ele está quebrado no último sonho? E porque, justamente o vento é citado, num lugar onde, em condições normais, quase nunca venta? “Única lágrima”?

 

Algum especialista, por favor.



Madonna Gospel.
janeiro 6, 2009, 4:01 pm
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             Veja bem: eu confesso que minha vocação cristã, apesar de me satisfazer, parece nunca ter sido suficiente, ou melhor, nunca ter nem se feito perceber pelos meus entes “fervorosos” – entre aspas para não dizer fanáticos, mesmo. Tanto é que nenhum deles faz muita questão de notar que eu estou na igreja todos os domingos, às 19:30h, em ponto. E, notam menos ainda, que faço questão de comungar, de me ajoelhar quando necessário e dizer amém com convicção. Penso que sou um bom católico. Até mesmo porque, estou sempre sentado ali na frente, ouvindo o sermão do padre, sem pestanejar, quase beijando seus pés.

             Veja bem mais uma vez: quase beijando é totalmente diferente de beijando.

             Quase beijei. Quase caí. Quase qualquer coisa.

             Quase morrer é diferente de virar presunto.

             Quase conseguir é diferente de ser vitorioso.

             Quase gozar é diferente do cigarrinho pós-transa e, dane-se o resto.

             Pois bem. Quase beijo os pés do padre, mas no sentido ingênuo e conotativo da palavra. E, enquanto o sacerdote fala, vou prestando atenção no seu gingado, na sua convicção, na sua técnica de fuzilar os fiéis com palavras. Ele não sabe o que fazemos, mas sabe que fazemos. Ele não sabe quem somos, mas sabe que somos. Para ele, isso basta. Cada fiel aceita para si as palavras do padre. E, sutilmente, ele desperta o pecador dentro de cada um – e, que pecador! – e, em seguida, faz questão de induzi-lo a pedir clemência.

             No fundo, ele é só mais um dos muitos ases do Senhor. Perito nisso. É mais um soldado em plena forma para aniquilar quaisquer lucíferes que aparecerem em seu caminho. O padre não é diferente dos outros padres. Muda a igreja, mudam os fiéis, muda o padre, mas o objetivo é sempre o mesmo: o mundo livre do pecado.

             O Moacir, o José, o Antônio, o Fábio. São todos padres, mas… o último é o Fábio.

             O Fábio é jovem. O Fábio é inteligente. O Fábio canta bem. O Fábio até aparece na TV. E, claro, o Fábio é bonito. Aposto que ele é cheiroso também, apesar da TV não ter cheiro.

             Casos assim sempre me atraem. Gosto de ver quando uma mulher vê um homem bonito na TV e diz: “Uau! Que homem!”, se esquecendo de que esse homem é um Gianecchini ou um viciado em cocaína*. Gente mundana. Rica e famosa, mas mundana. Mas, o melhor mesmo, é quando a mulherada olha pro padre (que é xará do viciado). Todas ficam sedentas da palavra sagrada. Todas se enchem de fé e religiosidade. Algumas até arriscam comprar um terço. Por causa de quem? Do padre. Queria ver se ele fosse feio.

             Pela terceira vez, veja bem: não critico o Fábio, de forma alguma. Nem critico a Igreja Católica, que sempre me acolheu, com o amor de Deus. Mas critico a pequena porção dessa mulherada. E sua hipocrisia cheirando a camarão estragado. Lembra dos tais “fervorosos” lá de cima? Sabem cantar todas as músicas do Fábio. Sabe os mesmos “fervorosos”? Não sabem nenhuma música do padre Zeca, ou do Marcelo Rossi (tirando aquela do “Ergue-ei, as mã-ãos e lá, lá, lá, lá, lá, lá!”). Depois vêm me dizer que beleza não é fundamental.

             No trabalho mesmo, vi uma mulher que nunca sequer pisou numa igreja católica. Nasceu numa família evangélica, virou a ovelha desgarrada e nunca se importou muito com isso. De uns meses pra cá, sua vida mudou. Ela encontrou a resposta (divina) para sua vida, claro, num CD (pirata) do padre. E olha! Vai à missa só duas vezes por semana, porque tem dias que trabalha até mais tarde.

             Enfim, religião não se discute, não é? Enquanto o cara ainda é bonitão, vale o esforço. Nada melhor que um soldado bonito no meio do mundo-cão. Alivia o coração e os olhos também. Se as tietes do divino prestam atenção à missa, verão que há uma oração dizendo: “Senhor, salvai aqueles que só Vós conheceis a fé.” E fé, meu caro, não tem nada a ver com fã.

 

*por falar no cheirador, por que ele é só um “viciado” e um cidadão comum, na mesma situação que ele, é vagabundo?



Bom dia, dia!
janeiro 6, 2009, 12:57 pm
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             São seis da manhã. Não sei porque, mas esse horário sempre me deu uma inspiração inesgotável. É como se acordar as 6 purificasse minha mente, ou algo do tipo, me dando a tal “verve” que preciso para tudo. Para minha corrida. Para mais um longo e cansativo dia de trabalho. Para meu livro no fim da noite. Para a noite que mal foi embora. É como se acordar as 6 me desse um brilho mais do que radiante, algo que chega a ofuscar as outras pessoas. Claro que elas devem pensar que ofuscam todas as outras também. Mas, é como eu li no blog, lá da Poetriz: é o tal do “acordar decidido” e eu acordei assim. Coincidência ou não, o dia também está cinza, como o dia do texto dela. Eu seria capaz de usar uma presilha colorida, caso tivesse uma e cabelo suficiente para prender.

             Enquanto observo os últimos vestígios da noite, olho mais uma vez para o relógio da cozinha. Ele é da cor do dia e sorri para mim, mostrando-me seus ponteiros de madeira. “Bem-vindo à vida, João” – ele diz, antes de me pedir para abrir a outra parte da janela. E me mostra a cidade, apagando e acendendo as luzes. Pessoas deitam-se depois da intensa noite. Pessoas levantam-se antes do intenso dia. Acordam antes do sol e o surpreendem com um “bom dia”, que, de um jeito ou de outro, atravessa a camada densa de nuvens no céu. “Pode ir, João” – ele responde – “Não vai chover agora.” E saio para a minha corrida.



Inferior excerto sobre o complexo.
janeiro 5, 2009, 2:01 pm
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Ela nem era, assim, tão atraente, mas tinha algo que me chamava a atenção. Cabelos castanhos, olhos claros e uma voz suave, que me lembrava aqueles lençóis de seda de hotéis caros. Era inteligente e sabia tudo sobre a recessão norte-americana, o pré-sal e algumas coisas sobre Freud. Era segura de si. Tinha uma certa convicção em seu olhar, fazendo com que tudo o que ela dissesse fosse verdade, mesmo quando não era. Não era. Era a pessoa perfeita, até eu perceber. Seria minha futura esposa, não fosse o péssimo hábito de olhar para o chão.



Feliz dia de ontem.
janeiro 2, 2009, 7:15 pm
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             Conversando com um novo-velho-amigo semana passada, ou ano passado, cheguei a mais uma de minhas muitas conclusões sobre algum aspecto da vida cotidiana: datas. Desde criança, sempre fui acostumado a guardá-las, não sei por quê. Sei quando foi minha formatura do pré, sei quando apresentei meu álbum de puericultura (ainda existia isso) e sei até mesmo quando minha prima comprou seu primeiro cd. Na ponta da língua.

             Mas nunca entendi essa minha ligação com datas. E nessa última conversa, descobri que elas SEMPRE – e aqui “sempre” não significa “na maioria das vezes” – trazem consigo uma sensação ruim. Datas são nostálgicas, são tristes, são deprimentes e, acima de tudo, são uma prova de que somos engolidos pelo tempo a cada segundo.

             Exemplos? Sua data de nascimento. Se você já é suficientemente grande para entender este pequeno excerto, certamente, já passou dos 15. E o que são 15 anos? Quanta coisa já mudou desde o seu nascimento? Quantos costumes já se tornaram obsoletos? Quantas modas já ficaram antiquadas? Normalmente, isso não é uma prova significativa da passagem do tempo, visto que somos materialistas demais para nos apegarmos ao abstrato. Sendo assim, lembre-se do seu melhor aniversário, do seu melhor presente, que, naturalmente, você ganhou em uma certa data. Sentiu-se velho?

             Como nós dois estivemos no Rio de Janeiro para assistir aos shows da Madonna, comentamos ainda sobre a data dos shows. Outra lembrança nostálgica e, ainda mais intensa. Quando nos referimos aos dias 14 e 15/12/2008, claro, não tivemos como esquecer as duas horas de show mais intensas da vida de muita gente, inclusive da minha. Mas, passou. O que vale então, 14 e 15/12/2008? Apenas um monte de números que lhe fazem ter vontade de viver tudo de novo e, em seguida, lhe estapeiam a verdade na cara: o tempo passou.

             Ok, para finalizar, o comentário que ouvi quando discuti com outras pessoas sobre o assunto: “mas e as datas que ainda estão por chegar?”. Essas talvez pareçam ser inofensivas, mas, a longo prazo, você vê que não são. A mesma pessoa que me fez o comentário, havia me dito que faria uma viagem ao exterior neste réveillon. Pude perceber sua ansiedade e sua angústia em olhar para o relógio de dez em dez minutos, esperando a hora de embarcar. Angústia e ansiedade, até onde sei, não são feições positivas ou alegres de alguém. Se fosse, não trariam úlceras. Ela viajou, passou o réveillon na Flórida e me mandou um e-mail, contando as novidades de lá. Finalizou da seguinte forma: “Ah, João! É uma pena tudo durar tão pouco tempo aqui! Dia 30 estarei de volta!”

             Resumo e exemplifico meu texto inteiro nesta última frase.



Adeus ano velho, feliz ano velho.
dezembro 29, 2008, 3:41 pm
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             Fim de ano é sempre a mesma coisa, sempre tudo igual. Inclusive o conceito de “fazer diferente no próximo ano”. Até as mensagens e cartões de réveillon são exatamente iguais. Muda somente o algarismo do ano seguinte.

             Retrospectivas e reflexões aparte, é quase obrigatória a parada para pensar no que foi feito no ano decorrido, o que poderia ter sido feito e a inexorável vontade de mudar tudo no próximo ano. Particularmente, acho tudo isso uma grande bobagem.

             Admito, claro, que a virada do ano é um momento de esperança, de renovação, ou pelo menos de anseio por renovações e, eu mesmo, as busco sempre. Renovar-se, então, é simples. Basta não se alicerçar em uma troca de datas para buscar o que é de seu interesse. “Ano que vem entro na academia”; “Ano que vem eu compro um carro”; “Ano que vem serei uma pessoa melhor”. Será mesmo? No réveillon passado, tenho certeza que você disse a mesma coisa.

             Esperar a meia-noite sempre foi desculpa para adiar interesses que despendem tempo, dedicação e atenção maiores do que podemos dar. Inovar então começa antes. Entre na academia no dia 28. Comece a juntar dinheiro para comprar um carro dia 30. Seja uma pessoa melhor às 23h do dia 31. Renove-se antes e valide seus propósitos. Feliz nova data a todos.



Jingle Bells, Jingle Bells.
dezembro 26, 2008, 11:21 am
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             De volta a ativa, novamente. Antes de mais nada, um feliz Natal (atrasado) a todos, com muita alegria, felicidade e menos hipocrisia. Hoje fui cumprimentado por quem eu não conhecia (até então), por quem não simpatiza comigo e por quem eu não gostaria de ser cumprimentado. Mas Natal é sempre assim e, coitado de quem não for condizente com a época. Ser bonzinho é pré-requisito crucial para que o bom velhinho seja generoso e, afinal de contas, Natal é para celebrar a paz, o amor e a fraternidade. Pelo menos no dia 25.
             Como cristão que sou, naturalmente deveria defender o Natal e o faço: juntamente com a Páscoa, o Natal é uma das mais importantes datas do calendário católico e das mais felizes também, digna de um Lela Pala Tute – que, particularmente, só conheci depois do show de titia Madonna – ou Walking on Sunshine (aquelas musiquinhas que todo mundo escuta quando está alegre). Além do mais, é natural que se comemore o nascimento de um bebê, por mais anônimo e desconhecido que seja. Se a vinda de uma nova criança ao mundo neo-pop-capitalista é comemorada, a chegada do Cristo Salvador a este mesmo mundo é excepcionalmente ovacionada. Meus caros, no Natal cristão, apenas.
              Como capitalista que também sou (e, claro, capitalismo e cristianismo não se dão muito bem) devo admitir que o Natal é mais uma das muitas datas exploradas pelo homem-primata-moderno, para vender mais, extorquir suas economias e obliterar o seu 13º salário, a sua aposentadoria ou pensão. Não é novidade para ninguém. Ironicamente, é uma época em que as pessoas adoram gastar as moedinhas de R$1 acumuladas arduamente dentro da lata de Nescau durante o ano. O bom velhinho não passa de um estelionatário. Golpista!
             Quando crianças, somos educados da seguinte forma: “Filho, seja bonzinho e faça duzentas flexões, ou o Papai Noel não lhe trará presentes no Natal!” ou, ainda: “Tome já essa sopa de quiabos de-li-ci-o-sa que a mamãe fez, ou o Papai Noel não vai trazer sua boneca!” e, claro, o clássico: “Papai Noel está vendo, hein?!”. Peraí! Quem é mesmo Papai Noel? Um homem generoso, uma alma caridosa, um grande coração. Uma invenção da Coca-Cola, talvez. Mas, “cocólatra” ou não, o velho barrigudo é bonzinho e, se é assim, não pune ninguém. Certo? Errado. Hoje Papai (Padrasto) Noel é assassino, terrorista, ladrão e, agora, ele também virou explorador de animais. Além de serial-killer, o obeso virou fã de McDonald’s e faz questão de botar os veadinhos para puxar algumas toneladas. E ele não se dá presentes da Natal. Resumindo: “Filho, se você for igual ao Papai Noel, tu tá ferrado!” No fim das contas, seu filho mandou a mãe ir se danar, cuspiu na careca do avô e entupiu o cano de descarga do carro com uma bola de tênis. Mas quem se importa? Você vai gastar um bom dinheiro com seu amável rebento no fim do ano, mesmo depois de ele ter colocado o cachorro no microondas para fazer hot dog.
             Quando crescemos, o espírito continua mais ou menos o mesmo, mas você passa a ter medo de alguma divindade, esquecendo-se do Papai Noel e, claro, de se preocupar com presentes, pois eles já estão garantidos, de qualquer forma. Você se comporta direitinho e não faz (quase) nada de mal para ninguém. Depois você acerta as contas com alguém, lá em cima ou lá embaixo, paga seus pecados com cartão e, na vida mundana, seu sapatinho amanhecerá cheio no dia 25. Jingle Bells!
             De volta à cristandade e à sobriedade, o Natal é o Deus Menino, que nasceu numa manjedoura, trazendo consigo as marcas da realeza sobre os ombros e sendo nomeado o Príncipe da Paz. Não é justo que a manjedoura vire bijuteria e Belém se transforme em pacote turístico. Caso contrário, decrete feriado no dia do nascimento do seu filho. Aproveite a data para comprar um peru e tomar com Coca-Cola. Talvez assim, o Papai Noel apareça de verdade. Reze para que ele não bote fogo na casa. 



Game Over
setembro 16, 2008, 7:46 pm
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Ontem à noite, quando cheguei da faculdade, flagrei meu irmão consternado, indignado por ter perdido o jogo no videogame. Achei a situação interessante, gostei de vê-lo começando a formar a mesma personalidade irritadiça que eu tenho. Não nega a raça.

Curiosamente, como ele está em fase de alfabetização, achei mais interessante ainda o fato de ele xingar, vulgarmente, o videogame de “butão”, soletrando em LIBRAS, Linguagem Brasileira da Sinais.

De fato, não nega a raça. Mas cabe a mim corrigi-lo. Tudo bem que, nessas situações, a gente xinga e esbraveja, fala palavrão e tudo o que há de podre, mas… Butão com U pode vir a confundi-lo no futuro. BÔ-tão e não BÚ-tão. O correto é com O e não com U.

Ele perdeu a paciência, mas aprendeu. Pouco tempo depois, mandou o videogame ir tomar no “CO”.

 

 



Benditos sejam os carecas.
setembro 13, 2008, 4:00 pm
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Quando eu era criança, meus cabelos eram sublimes, primorosos. Castanhos quase-loiros, lisos, finos, macios, sedosos e demais termos que digam, delicadamente, que meus cabelos eram bons. Sim, eram bons, muito bons e dariam inveja a qualquer chinesa, ou japonesa, ou coreana, não importa. As asiáticas são todas iguais.

Mas quando a gente cresce, quando a gente ganha certas porcentagens de inteligência não-inteligente, a tendência é estragar o que ainda estava intacto. Raspei o cabelo, pintei, emplastrei de gel e alguns outros produtos que hoje, juro que eram desinfetantes, lustra-móveis e loções para dar brilho em pneus. Todos eles, claro, disfarçados em frascos de xampu. Devem estar à venda até hoje. Já usei um frasco inteiro de soda cáustica fantasiada de Neutrox e outro de ácido muriático, que tinha um codinome estranho, algo parecido com Kerastase.

Ultimamente, tenho usado um detergente. Parece mostrar alguns resultados, mas cabelo estragado é cabelo estragado e não há nada que eu possa fazer para recuperá-lo. Apesar de lisas, minhas madeixas engrossaram e ganharam volume. Continuam macias, mas preciso sempre de um gel, ou uma leve dose de laquê, mousse ou gelatina. São outros produtos corrosivos que também podem ser comprados em supermercados.

Aquela conversa de volume controlado, anti-frizz, liso intenso, ondas marcantes e tantas outras nomenclaturas cosméticas, nunca me serviram de nada. Aliás, nunca servem de nada para ninguém. O que muda é a cor, o cheiro e a garrafa, mas em essência, é tudo a mesma coisa. Todos com lauril-étersulfato de porra nenhuma, pentafosfato de qualquer merda e substrato de pó de bosta.

Os cabelos continuam armados, amarfanhados e volumosos. Torturante hora em que mamãe me deixou ir cortar o cabelo sozinho. Naquele tempo, meus cabelos escorridos não permitiam nenhum corte legal, nenhuma franja, nenhum topete. Raspei. E apanhei quando cheguei em casa. Pintei, e apanhei quando saí do banheiro. Fiz topete e apanhei quando tampei o pote de gel. Cresci. Minha franja entortou, meus fios engrossaram, o volume aumentou.

Há dez anos venho tentando encontrar um lugar, um santo lugar, onde desentortem minha franja. Antes da última vez em que cortei o cabelo, deixei-o crescer propositalmente, a ponto de me incomodar. Cresceu tanto, que passei a trabalhar com um capacete. Dormia e acordava com ele e só o tirava quando tomava banho. Ainda assim, porque a água o desmanchava. O capacete despistava minha franja, mas aumentava a minha cabeça. Me sentia como um microfone, ou como a Beyonce no clipe de Naughty Girl.

Resolvi cortá-lo, em algum lugar que tivesse chances de colocar minha franja no prumo. Desde quando ganhei minha autonomia de fazer o que eu bem entendesse com minhas madeixas, (e fiz mau uso dela) é que venho tentando desfazer a cagada de dez anos atrás. Dez anos tentando. Dez anos com a franja torta.

DARIA UM COMERCIAL DA W BRASIL PARA AS ELEIÇÕES.
“João. Dez anos com a franja torta.”

Dez anos peregrinando de salão em salão. Até pelas mãos de parentes já passei. Sou a pessoa que mais conhece barbeiros, cabeleireiros, tesouras e navalhas. Não me preocupo com volume, ou espessura dos fios, mas me importo com minha franja. E qual é a maldita dificuldade em aprumá-la? Não sei. E nem quero saber. Só quero que ela fique reta. Resolvi cortar o cabelo no salão mais caro da cidade. Lá eles devem conseguir algo. Pelo preço cobrado, tem que conseguir.

Um breve apanhado de palavras: Quinta-feira. Cinco e meia da tarde. Fim de expediente. Uniforme. Peruas lavando os cabelos. Piranhas esticando. Boiolas cortando. Bichas falando. Maridos esperando. Dinheiro, cheques e cartões de crédito. Eu.

A minha vontade era a de pegar uma daquelas bichas e mandá-la dar um jeito em meu capacete. Não foi preciso. Já gritaram, em uníssono, quando pus os pés para dentro da Casa Verde: “Precisando de um corte, hein, mocinho?!” É. Eu precisava de um corte. A cadeira era mais imponente que o trono do presidente da minha empresa. As bichas eram quase-misses em seu posto triunfante, de tiara e faixa pendurada sobre os seios. E eu era um cara comum, que precisava cortar o cabelo.

Quase duas horas, debaixo de tesouras, sprays e madames com cheiro de jujuba. Quase duas horas fitando minha franja, que por sinal, foi a última coisa a ser cortada. Xampus, cremes e duas lavagens de cabelo. Reparador de pontas, condicionadores a minha escolha: todos importados. Tesouras impecáveis de alumínio e mãos hábeis. Duas horas depois. Oitenta reais a menos. Livrei-me do “homem-microfone”, da Beyonce e do meu capacete de ciclista. Os cabelos molhados e a franja de pé, imponente, me fazendo sentir um daqueles galinhos de briga.

Meia-hora depois, cabelos secos, franja torta.